Capítulo 1 - Grande Perseguição em Aurora

When I was just a boy

Aurora

GRANDE PERSEGUIÇÃO EM AURORA

Tudo acontecera muito rápido na Torre de Randal, de uma forma que seria difícil de descrever assim como de se lembrar com exatidão. Harimau e Gillian ficaram cara a cara com os invasores que com uma agilidade fantasmagórica desapareceram pela janela tão logo foram vistos. Estranhos invasores de mantos negros e máscara branca e sinistra.

Sem pensar duas vezes Harimau saltou pela janela junto de Gillian e pôs-se a perseguir um dos invasores da torre. Do outro lado do telhado Gillian disparava suas pistolas contra seu inimigo em um combate ferrenho. Logo em seguida uma nuvem de fumaça se ergueu e tudo ficou oculto. Harimau sentiu suas narinas arderem e olhos lacrimejarem. O inimigo o qual perseguia havia saltado da torre desaparecendo na nuvem de fumaça.

Harimau nada via, sequer tinha algum senso de direção lá de cima para saber se haveria alguma outra construção nas adjacências. Mas imaginando que o inimigo não tinha asas, saltou atrás dele contando que realmente existisse algum telhado à frente.

E existia.

O corpo do monge cortou o ar com maestria e pousou firmemente no telhado de uma construção vizinha à torre, ali abaixo da colina. Abriu os olhos que ardiam e viu o invasor lá na frente, correndo pelos telhados e já saltando por sobre uma ruela para o edifício do outro lado dela.

Harimau se pôs a correr, como fora treinado a fazer desde pequeno. Passadas largas e bem marcadas, respiração controlada. Um lince, um tigre.

O invasor saltava com seus mantos negros, parecia uma ave de rapina. Negra como a noite. Ele olhava para trás e via que seu perseguidor não se cansava, tampouco se atrapalhava com os obstáculos do caminho. Telhados sinuosos, telhas soltas, alpendres, chaminés, letreiros. Desviava e passava por todos com mais habilidade que ele. O invasor estava estupefato.

Harimau corria e saltava, deslizava pelas telhas e ganhava cada vez mais velocidade.

O invasor temendo ser alcançado agarrou-se a uma trave e fez uma virada cerrada para a esquerda pois percebera que seu perseguidor ganhava ainda mais velocidade. Com isso ele esperava que Harimau escorregasse lá de cima e despencasse para a morte nas ruas de Aurora.

Mas não foi isso que aconteceu, Harimau agarrou-se a trave com força e seus pés giraram sobre o vazio, lá embaixo um mar de pessoas, carros e carruagens. Alguns pedaços de telha voaram, assim como um segmento da calha d’água, poeira e suor. O corpo do monge girou duas vezes ao redor da trave de madeira e saltou com toda a sua força.

O invasor já saltara e se agarrara ao torreão elegante do Salão Delamare, içando o seu corpo para o alto do telhado. Olhou para trás e seus olhos se arregalaram sob a máscara. O seu perseguidor, aquele monge, o garoto chamado Harimau havia saltado como um felino e agora estava bem perto dele.

A perseguição continuava.

O torreão do Salão Delamare era rodeado de grandes janelões onde jardineiras derramavam suas roseiras e cortinas-vivas. Lá dentro sofás e mesas luxuosas onde damas de companhia dançavam com seus ricos e poderosos. O invasor içara-se tão rápido que apenas o seu vulto foi percebido por algumas pessoas, que ao olhar nada viram. Apenas flores destruídas. Em seguida Harimau surgiu como que do ar. Assustando a muitos.

Algumas damas de companhia levaram suas mãos em suas finas luvas à boca, outras agarraram as anáguas e correram. Serventes derrubaram bandejas e ricos engasgaram com as fumaças de seus próprios cachimbos. E ali na janela Harimau agachado, suando em bicas por tamanho esforço muscular e naqueles poucos segundos em que olhou lá dentro gostou do que viu e sorriu maroto. Algumas moças também sorriram e se abanaram. Mas foi tudo muito rápido, logo o garoto desaparecera da janela.

Harimau correu pelo telhado, subiu e desceu pelo outro lado, já não via mais o invasor. Até que o viu já saltando de batente em batente até o beco atrás do torreão do Salão Delamare. Não perdeu tempo e mandou o mais perfeito movimento que poderia fazer, sem falhas, o feito poderia entrar para a história da cidade de Aurora. O garoto parecia se divertir, e assim também aparentava seu oponente.

O jovem monge saltou de parede em parede, agarrou-se em batentes e saltou para o outro lado, girou o corpo e correu pela parede saltando até um alpendre onde girando seu corpo sobre uma trave saltou quase nos calcanhares do invasor.

A perseguição continuou pelas ruas da cidade, ruelas e becos. O invasor percebeu que seria alcançado. Sua memória o fez lembrar de confrontos passados com monges, mas nenhum como aquele, naquela situação. Rápido e um verdadeiro atleta, por um instante o invasor se viu curioso sobre o que mais o garoto seria capaz de fazer!

No fim do beco uma grande rua de Aurora se abria e o invasor a atravessou sem nenhum problema. Desviou de todos os obstáculos, pessoas, carros, barris e mulas, mas Harimau também passaria sem problemas. Mesmo quando na sua frente surgiram a bela elfa Lia em seu cavalo acompanhada do elfo Chrono também em seu cavalo.

Os dois elfos o viram surgir no beco, correndo como um condenado que foge da cadeia, em direção a eles. Por um instante os sentidos élficos ficaram inebriados com a força vital que emanava de Harimau, uma energia diferente, eles sabiam que não era magia, era vida, pura vida… Nesse milésimo de segundo, sentiram os espíritos dos muitos animais com ele, a força de um touro, a voracidade de um tigre, a precisão de uma águia e agilidade de um lince. E em um segundo, ambos viram através dos olhos de Harimau, ele não estava na cidade, em meio a prédios, telhados e ruas, mas sim uma floresta densa e desfiladeiros rochosos por onde saltava e se agarrava. Mais tarde, Chrono e Lia se perguntariam como poderia um reles humano ser tão uno com a natureza, que treinamento ele deveria ter recebido… Era isso o que os monges chamavam de Ki?

Tudo foi muito rápido. no segundo seguinte, Harimau estava deslizando, por baixo dos cavalos dos elfos, levantando poeira da rua em que estavam, a sutileza e a rapidez do ato, fez com que Lia só percebesse o que acontecera, quando o menino já havia passado. Chrono o acompanhou com os olhos, surgindo um leve sorriso de aprovação em seu rosto, àquela força e vontade ali demonstrada.

Harimau surgiu do outro lado e continuou a correr em perseguição ao invasor da Torre de Randal.

Porém na perseguição pelos becos, Harimau o perdeu de vista. Chegou a entrar por uma janela, mas foi em vão. O perdera.

Mais tarde descobriu com a ajuda de Lia e Chrono que o invasor havia fugido pelo telhado novamente. Mas já era tarde demais.

Ele escapara.

Capítulo 1 - Grande Perseguição em Aurora

Zaev, Magia, Glória & Sangue Xaal