Capítulo 4 - Fonte da Vida, Porta para a Morte

When I was just a boy

Casa de randal

FONTE DA VIDA, PORTA PARA A MORTE

O interior da torre parecia menor do que a princípio se poderia imagina, vendo-a por fora. Isso se devia ao fato de estar abarrotado de quinquilharias e bugigangas. Porém, tudo organizado e de certo modo aconchegante. Wandaelis arrumava os pães recheados e um jarro de água sobre a mesa enquanto Randal servia o leite com ervas doces queimadas. Ambos já tinham arrumado a sala por onde os invasores tinham entrado, Randal pregara tábuas de madeiras nas janelas, e agora a luz do dia entrava por filetes entre as tábuas. Tochas nas paredes da torre iluminavam o lugar.

Lia foi a primeira a entrar atendida por uma atenta Wandaelis, que viu por sobre os ombros da elfa o Tabelião Hookerbrook ao portão, logo em seguida Harimau passou por ela aos trambolhões ainda discordando de Chrono que entrara logo atrás dele. O elfo dava uma bronca nele, quase puxando o garoto pelas orelhas, mas de certo modo fraternal. Chrono era um jovem elfo, e por mais sábio que sua raça fosse, devido a sua longevidade, ele se divertia com as “molecagens” de Harimau, se identificava em alguns, poucos, momentos…

_"Onde já se viu falar de assassinos, bombas de fumaça, tiros de pistola com uma pobre senhora! Acho que merecia ser poupada desse tipo de detalhes!" Dizia o jovem elfo.

Harimau recostou em uma estante repleta de livros aparentemente em desordem e cruzou os braços sobre o peito. Ainda respirava pesado, pelo frenesi da perseguição. A explosão de seu Ki ainda pulsava em seu corpo e espírito.

- Não eu não disse nada disso – negou o jovem monge. Teimosamente.

- Disse. E disse entre outras coisas que, aliás, não faço a menor ideia do que tenha sido – rebateu Chrono já apresentando um pouco de cansaço.

- Tá vendo. Se não entende o que eu digo como pode saber que eu tenha dado uma de fofoqueiro.

Wandaelis retornou à mesa de toalha xadrez e cortou o pão recheado em fatias, e em seguida desejou algumas voltas de mel. Derramou um pouco sobre a mesa, seus olhos tinham se fixado brevemente em Harimau. Jovem, mas estranhamente charmoso, seu corpo era forte e habilidoso. E sentiu um pulsar quando seus olhos se encontraram.

– Wanda! A toalha – alertou Randal já segurando as mãos de sua filha.

Os olhos de Harimau percorriam os cabelos e corpo de Wandaelis. Mais jovem e sem tantos pudores, ele reparava que a maga era magra, esguia e ao mesmo tempo tinha uma certa voluptuosidade sob seu vestido negro. Extasiado com tudo que ocorrera momentos antes, aquele momento parecia ser eterno, e ela estava, aos seus olhos, linda e misteriosa. Seus olhos haviam se encontrado por um instante.

- Você precisa se controlar mais. Quando fica nervoso se atrapalha com as palavras, mistura dialetos e idiomas – continuou Chrono que já auxiliava Lia na retirada de seu equipamento, a elfa tirava calmamente suas luvas e reparava toda a energia e clima ao seu redor…

- Ahm?! É eu acho que sim… – respondeu Harimau um tanto quanto sem jeito. Ele levou uma das mãos para trás da nuca franzindo o cenho. Era mulherengo, safado, mas ficava envergonhado perto de Wanda e não fazia ideia do por quê.

Wanda pegou a badeja onde Randal havia disposto os pães, mas seus pensamentos ainda estavam distantes. Ela vira Harimau correndo pelos telhados em perseguição ao invasor que invadira a torre de seu pai. Estaria ela maravilhada com como aquele garoto conseguira ir tão longe, correr por telhados e pular ruas com tamanha facilidade? Arriscara sua vida e havia sido pelo pai dela. Ou estaria concentrada em outro mistério qualquer que cabia somente em sua mente?

- Precisamos encontrar Gillian – disse Lia pegando o menor dos pedaços de pão com mel e deixando a bandeja nas mãos de Chrono, Com um olhar para o garoto ao lado, retirou o sorriso bobo de Harimau do rosto.

- Ao que parece ele deve ter ido mais longe do que Harimau, talvez chegado ao covil de nossos inimigos… – continuou Chrono, que negava o pão oferecido e devolvia a bandeja para Randal

- E você como está? – dirigiu-se Harimau a Randal.

- Bem, aparentemente roubaram algumas coisas do meu cofre… Sede? – Disse Randal, oferencendo-lhe o jarro de leite.
Chrono pegou os copos oferecidos por Wanda, entregou um para Lia e continuou a conversar com ela. Wandaelis ainda dispersa em seus pensamentos virou-se e deu de cara com Harimau.

- Não! Não! Água… Água! Só água mesmo – respondeu ele reagindo nervosamente à proximidade da linda Wandaelis.

- Ali do outro lado da mesa, na jarra de vidro. Está fresca. – respondeu Randal rindo, reparando no nervosismo do gatoto. Wanda apresentava uma expressão imparcial àquela situação.

Harimau virou-se rapidinho, o calor da juventude percorria suas veias, que já estavam em frenesi pela explosão do Ki. A passos largos foi até a jarra de água, ocultando sua excitação.

Bebeu com avidez a água fresca, estava com muita cede, mas estava mesmo querendo acalmar seu corpo e seu espírito.

Não parou até beber da jarra até a última gota.

E isso foi um erro, ou talvez tenha sido a salvação de alguém naquela sala.
Enquanto Randal explicava a Lia, Chrono e Wanda o que havia sido roubado, Harimau sentiu uma forte dor abdominal e suas forças começaram a se exaurir. Havia apenas franzido o rosto, mas Lia já olhava para ele. Teria ela sentido a diminuição do Ki no corpo dele? Se sim, a elfa sentira isso no exato instante. Logo em seguida o monge agarrou-se à mesinha derrubando o jarro d’água e outros vidros no chão ruidosamente.

Então o garoto foi ao chão se contorcendo de muita dor, enquanto Lia, Chrono e Wandaelis correram em sua direção. Harimau se contorcia pelo chão. O garoto havia demonstrado grande resistência e saúde, eles já o tinham visto muito ferido e Harimau jamais tinha demonstrado dor ou fraqueza. Mas ali gemia alto de dor.

Randal ficou imóvel e olhou para a jarra de água quebrada que agora jazia sob os pés de Chrono que impedia que Harimau rolasse por cima dos cacos de vidro.

- Veneno. Era assim que esperavam me matar – disse Randal, o Místico, com olhos vazios – Esse veneno é forte o bastante para derrubar um monge de imediato, mesmo com toda a sua saúde. Precisamos levá-lo imediatamente ao Boticário e Herbalista antes que seja tarde demais. Esse veneno é mortal, e não tenho dúvidas quanto a isso. Teria matado qualquer um de nós em instantes. Vamos. Rápido. A vida de Harimau está em nossas mãos agora.

Capítulo 4 - Fonte da Vida, Porta para a Morte

Zaev, Magia, Glória & Sangue Xaal