Capítulo 5 - Entre Este e o Outro Mundo

When I was just a boy

Ayothaya sunset

Ele sentia o calor e a maciez das areias brancas, a brisa suave no seu rosto e cabelos. O canto dos pássaros, o farfalhar das copas das árvores e das palmeiras que se agitavam, as intermitentes ondas do mar nas rochas e recifes. Um céu espetacular, de nuvens douradas assim como o sol. Um calor agradável. Um mundo que poderia ser eterno.

Harimau caminhou por toda a praia, deixando para trás pegadas profundas e um olhar vazio. Entrou nas límpidas, mas verdejantes, águas. Os peixes coloridos rodopiavam ao redor dele. Os olhos brilhantes, de saudade e desesperança.

Deixou-se afundar e sentiu o frescor daquelas águas em sua pele quente. E nadou. Nadou como se jamais quisesse retornar à praia. Abriu os olhos e os recifes repletos de vida se descortinaram diante dele. Torres e estátuas sinistras, pagodes e palácios sepultados pelas maravilhas do oceano, transformados a muito tempo em recifes e povoados por toda espécie de criatura marinha.

A tez de menino, de olhar puro e rosto carismático, o corpo moreno e saudável como um formidável atleta, cabelos negros como a noite agitando-se nas águas do mar. Ele levou uma das mãos ao abdome definido que se contraiu.

Dor. Sentia muita dor. Jamais sentira isso antes, parecia que mil lâminas o apunhalavam por dentro. Uma dor que o afastava cada vez mais da praia, pois quanto mais adentrava o oceano, mas sentia-se leve e aliviado. Parecia voar por sobre todas as maravilhas do firmamento.

Ele então ouviu risos vindo na direção da praia, distantes como que de um sonho. Ergueu a cabeça das águas e viu que havia muitos barquinhos agora e dezenas de meninos tal como ele, mas mais jovens correndo pelas areias em uma infantil e terna algazarra e alegria.

Os braços fortes tentavam manter seu corpo flutuando, pois suas pernas quase nem sentidas eram. A água descia de seus cabelos rolando pela face ardendo os olhos com o sal do mar. As marolas batendo em seu peito e ora o outra subindo pelo pescoço. Os olhos vidrados, perdidos nas areias da praia e então sorriu.

Um sorriso de mais pura saudade. Uma saudade dolorosa. De um lugar e pessoas que não mais estavam lá. Nunca mais estariam. E aqueles dias felizes terminaram em uma noite tempestuosa e demoníaca.

O pequeneninho Harimau e seus amigos corriam felizes e fora do alcance de qualquer maldade ou corrupção sob o voo dos pássaros e das nuvens dos céus. O sol erguia-se atrás deles como um eterno entardecer de modo que os meninos nus e unos com a natureza tais como indiozinhos da floresta fossem apenas silhuetas negras de encontro ao céu dourado-alaranjado.

Harimau já havia perdido tudo, restara apenas a sua fé. E agora entre este mundo e o outro percebera que não ficaria nada para trás. Não deixaria nada. Ainda havia muito pelo que lutar, mas a verdade era que ele já não tinha laço com nada ou com ninguém e que sua morte sequer seria realmente sentida. A dor em seu abdome não era maior do que a dor em seu coração. A fé esvaía como as areias em uma mão trêmula e a noite chegava.

As vozes de Pakpao e Kai-Mook, pai e mãe de Harimau, assim como a de seus irmãos ecoavam no horizonte agora escuro. Para além da linha entre o céu e o oceano. Vozes pedidas na escuridão e Harimau sentia que era hora de se juntar a elas. Juntar-se ao ki do mundo. A sua Atothaya que não mais existia, ao seu povo e clãs que desapareceu e a seus amigos e familiares. Estariam mais uma vez juntos, no ki de Byakkaw e da Grande-Mãe.

Não havia nada para ele em Zaev. E ele agora percebia isso. Pôs-se a nadar. Seu corpo cada vez menos sensível. Morto.

As bandagens dele afundavam soltas, assim como suas faixas e short. Tudo ficava para trás e afundava na escuridão. Ele não levaria nada. Nem mesmo o seu corpo quando chegasse. Quando chegasse a seu destino.

Tudo valera a pena. Cada sacrifício. Cada batalha. Cada morte e ressurreição.

Mas não valia mais a pena. Harimau nada mais tinha em Zaev e ninguém sentiria a sua falta. Ele morreu junto de toda Ayothaya.

Brilhou em sua mente um olhar de reprovação, a batedora de longos cabelos loiros e de uma estranha beleza que só uma elfa poderia ter. Seus olhos reprovadores na mente de Harimau, cortantes como flechas.

Uma flecha defletida pelos braços ágeis de Harimau, na outra extremidade o arqueiro. elfo. Tal como um irmão mais velho, sempre a ralhar.

A doce e bela música de seu parceiro, o bardo que a transformava maravilhosamente em mágica. O mais próximo de um amigo que Harimau tinha.

Cachorros surgiram por todos lados, e Harimau não estava mais nas águas. A cada chute e manobra um cachorro sinistro caía morto.

Mesas e cadeiras voavam, pratos rodopiavam e muita confusão. Ao lado de Harimau que se divertia com o quebra quebra e pancadaria, o pistoleiro. Que se tornaria um amigo de aventuras, e na verdade, o primeiro amigo de Harimau fora de suas terras.

Harimau não mais nadava, mas ainda na água agora afundava nu em direção à escuridão. Ao frio seu corpo morreria e então seu ki despertaria para a vida espiritual junta a Grande-Mãe e ao Senhor Byakkaw.

E o mago pulou a janela tentando não ser visto saindo de sua torre, seu ajudante à porta tentava despachar os visitantes. Mas o mago foi visto. Comicamente.

E a voz da maga ecoou pelo vale, era noite e Harimau conversava com ela. Alguém que a vida tornara especial, de uma forma que o menino Harimau não entendia. Pois até então só havia se aproximado de uma mulher sexualmente. Sentimentalmente realmente era a sua primeira vez. E esse sentimento queimava com um calor imensurável. E crepitava nas fornalhas interiores de seu coração e reacendia a sua fé.

- Harimau!

- Harimau!

Chamava ela.

E a mão de Wandaelis surgiu na escuridão do oceano e segurou na de Harimau puxando-o das águas escuras. Das profundezas da morte. A voz dela guiava o seu espírito e o seu coração.

Zaev lhe presenteara com pessoas maravilhosas, a batedora, o arqueiro, o bardo, o pistoleiro e…

… Wandaelis a maga.

O mundo, ainda havia um lugar nele para Harimau. Com essas pessoas. Com ela.

E ele trilhou o caminho de volta para o mundo.

Nas mãos de Wandaelis.

Capítulo 5 - Entre Este e o Outro Mundo

Zaev, Magia, Glória & Sangue Guto